Legado da Copa para as crianças na área da atividade física

    Para se falar de qual legado a Copa do Mundo deixará para nossas crianças, na área da atividade física, é preciso fazer uma retrospectiva de grandes eventos esportivos.

Até 1980, havia uma convergência de opiniões, entre comunidade acadêmica, administradores públicos e investidores privados, de que sediar megaeventos esportivos era um risco financeiro e administrativo para as cidades e para as instituições organizadoras. Essa visão reforçava-se pelos prejuízos financeiros ocorridos nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e nos de Montreal, em 1976. Entretanto, os lucros atingidos nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, chamaram a atenção para a possibilidade de esses eventos trazerem benefícios econômicos e sociais para as cidades-sede. Os Jogos Olímpicos de Atlanta, realizados em 1996, forneceram importantes lições para as cidades que pretendem sediar eventos com dimensões similares. De um modo geral, esse evento trouxe benefícios para a cidade. Os resultados indicaram que houve estímulo econômico de curto prazo e de médio prazo. O legado, em termos de instalações esportivas e de imagem, foi significativo, embora o evento não tenha provocado o impacto social esperado.

Da mesma maneira, o legado da Copa do Mundo é constantemente associado a obras, cifras, números, relatórios técnicos e análises de especialistas em economia e desenvolvimento social. Os relatórios de especialistas estimaram que a Copa do Mundo da FIFA de 2014 agregaria 183 bilhões de reais ao PIB do país e mobilizaria 33 bilhões de reais em investimentos em infraestrutura, com destaque para a área de transporte e sistema viário.

Cerca de 3,7 milhões de turistas, brasileiros e estrangeiros, deveriam gerar, no período do evento, 9,4 bilhões de reais, de acordo com dados oficiais. Em todas as áreas, 700 mil empregos permanentes e temporários seriam criados.
Como no caso de Atlanta, visualizamos uma repetição do mesmo quadro, uma Copa de estímulos financeiros, imagem positiva e instalações esportivas, que segundo especialistas não é aproveitada para o incentivo à prática de atividade física.

Em entrevista recente, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Curi Hallal, disse que: “… os grandes eventos esportivos, teoricamente, podem ajudar a promover a atividade física entre os brasileiros”, no entanto, não foi feito o investimento necessário por parte das diferentes esferas do governo para aproveitar a Copa do Mundo como forma de promover a prática de exercícios físicos”.

Para o Presidente do Conselho Federal de Educação Física, Jorge Steinhilber, os legados socioeducacionais estão sendo relegados. Falta vontade política para realizar um programa que de fato incentive e aproveite a oportunidade dos megaeventos para agregar outros valores.

O Ministério do Esporte, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), está realizando o Diagnóstico Nacional do Esporte (Diesporte), que apresentará um perfil do praticante de atividade esportiva no País, organizado por sexo, faixa etária, escolaridade, nível socioeconômico, entre outras variáveis. O Diesporte poderá auxiliar na formulação de políticas, com o objetivo de democratizar o acesso às atividades esportivas, e agregar outros valores aos eventos esportivos do país.

O investimento realizado com a Copa, em comunicação, deveria, em conjunto, ter promovido campanhas de incentivo à prática de atividades físicas, ao invés de apenas divulgar o evento. Em minha opinião, esta é a grande oportunidade perdida. Caso fossem realizadas, estas campanhas poderiam melhorar o conhecimento dos benefícios da atividade física, aumentar a consciência das oportunidades para a atividade física em uma comunidade, ajudar as pessoas a participarem das atividades que estão disponíveis e realizar uma análise cuidadosa das necessidades de populações específicas no desenvolvimento de programas de atividade física. Estes pontos são importantes para dar apoio à mudança de comportamento.

Dentro desse cenário, me pergunto: o que este megaevento deixa como legado para as nossas crianças na área da atividade física? Acredito que ele não trará grandes benefícios para a educação física. Poderia ser aproveitado, caso houvesse incentivo governamental, premiando ideias que valorizam a área da educação física, com a utilização de toda a infraestrutura dos estádios e dos seus entornos.

Fonte: Departamento Científico de Nutrição da SPSP