Mães superprotetoras criam filhos ansiosos

A revista virtual Hype Science publicou matéria sobre estudo que afirma que mães superprotetoras logo nos primeiros anos de vida das crianças têm maiores chances de criar filhos ansiosos. Pesquisadores da Universidade Macquarie, na Austrália, acompanharam 200 crianças durante cinco anos e descobriram que, dentre as crianças observadas, aquelas mais ansiosas e inibidas eram mais propensas a terem mães superprotetoras. O surpreendente do estudo é que a ansiedade das crianças pode começar cedo, entre os 4 e 9 anos de idade, bem na fase em que muitos pais querem mandar totalmente na vida de seus filhos. De acordo com a matéria, o estudo também revelou que filhos de mães ansiosas ou depressivas têm maior risco de desenvolver ansiedade na infância.

Hype Science, 19 de agosto de 2012

É natural que a mãe exerça uma grande proteção sobre seu filho recém-nascido que, como todo bebê, nasce muito desamparado e totalmente dependente dos cuidados maternos, até para sua sobrevivência, o que torna este vínculo algo muito especial e prazeroso. Mas, à medida que a criança cresce e vai ganhando novas habilidades e capacidades (engatinhar, andar, falar, largar o peito, comer sozinha), explorar o mundo a sua volta, com todos os estímulos interessantes que ele oferece – dos novos espaços às novas pessoas – vai se tornando uma atividade tão gratificante quanto o vínculo com a mãe, o que por si só estimula a criança a ir à busca de novas experiências, aprimorando ainda mais suas competências.

É dessa forma que, ainda protegida pelo ambiente familiar, a criança vai aprendendo sobre a realidade a sua volta e sobre si mesma: a tarefa de brincar, experimentar, conhecer, assimilar permite que a criança forme conceitos e opiniões sobre as coisas, identifique os sentimentos que vivencia com as pessoas, crie novos vínculos afetivos, desenvolva recursos para enfrentar situações desagradáveis ou de conflito e, com isso, que ela construa uma imagem de si mesma que lhe traga confiança e segurança. Assim, vai ganhando autonomia e independência com relação aos cuidados maternos, o que é fundamental para descobrir como lidar com as exigências que virão de familiares, escola, amigos, etc. usando seus próprios recursos.

Portanto, à medida que a criança cresce, ela precisa de mais espaço físico e psíquico para se descolar da relação de dependência dos cuidados maternos e isso, inevitavelmente, promove uma mudança no vínculo com a mãe. Para algumas mães, essa autonomia da criança pode vir acompanhada de sentimentos muito conflitantes. Pode acontecer de essa mudança ser vivida não como um ganho, uma conquista do filho e dela própria, mas como uma perda – perda da relação tão única e prazerosa onde mãe e criança faziam um par perfeito. Há uma confusão entre as necessidades da mãe, que visa protelar o desapego, e as da criança, que já estão voltadas para o mundo lá fora.

Pode acontecer, também, de o momento onde a criança já começa a mostrar mais independência quanto aos cuidados maternos, ser também o tempo onde a mãe precisa voltar a trabalhar, se afastando fisicamente do filho, tendo menos tempo para acompanhar seu dia a dia e brincar com ela, motivo recorrente de culpa, ressentimento e tentativas de compensação por parte da mãe – incluindo um proteção excessiva.

A separação entre a criança e a mãe pode, também, relembrar outras vivências dolorosas de separação na história materna, que são revividas na maternagem com o filho. Ou ainda, a mãe pode se sentir insegura quanto a sua competência para prover a criança daquilo que ela precisa, à medida que vai crescendo, e com receio de não ser boa o bastante para satisfazer as demandas do filho.

Podemos pensar que essa busca de autonomia pela criança, se intensifica a partir dos 4 anos, porque muitas aquisições importantes para sua independência já estão sendo solidificadas: a fala, a marcha, o controle de esfíncteres, o sono, a alimentação, entre outras coisas que dependiam dos cuidados maternos, já encontram na criança um “deixa que eu faço sozinha!”, num pedido claro por autossuficiência.

Seja qual for a causa, a superproteção é um sinal de que algo não caminha bem nessa relação. Ao tomar o controle da vida da criança, impedindo ou dificultando que ela viva novas experiências e esteja sujeitas aos riscos que todas as crianças sofrem quando brincam (cair, esfolar um joelho, se desapontar com um insucesso, ficar com raiva por não conseguir montar um brinquedo, brigar com um amigo), ao fazer as escolhas e decidir pela criança o que ela deve pensar, comer, vestir, ao oferecer um excesso de orientações sobre como ela deve se comportar, reagir, ao definir ideais que a criança deve cumprir, a mãe pode até usar a premissa do imenso amor que sente pelo filho ou do medo de perdê-lo frente às crescentes ameaças do mundo para justificar-se. Mas, na prática, o resultado é uma criança tolhida em seu desenvolvimento e sujeitas à manifestação de quadros de ansiedade.

Por que a superproteção materna pode levar a ansiedade na criança?

Porque ao tomar conta da vida do filho, a criança não só se vê privada da satisfação pessoal de realizar algo por conta própria como, também, de perceber as diferenças entre ela e os outros, ela e as situações, ela e os fatos e com isso construir os limites que indicam quem é ela, até onde pode ir e o que precisa saber para lidar com a distância entre o que ela deseja e o que ela pode, entre a fantasia e a realidade, que são condições necessárias para a construção da confiança e segurança em si mesma e de uma autoestima satisfatória.

Ela fica privada de perceber o que consegue ou não realizar, o que a satisfaz ou desagrada, o que sente pelos outros e o que sentem por ela, por exemplo. Também fica insegura sobre como superar os obstáculos ou vencer os desafios inerentes à suas vivências, como lidar com o novo e o desconhecido e aproveitar melhor o que já e familiar.

Como são as experiências da vida que formam um conhecimento e um saber sempre renovado e ampliado para a criança, a superproteção torna as crianças menos abertas a novidades e mais vulneráveis aos acontecimentos que não domina.
Precisa constantemente da aprovação e confirmação materna e, mais tarde, de outros adultos, para tomar decisões ou para agir, busca repetidamente saber qual é a opinião da mãe ou que esta indique como deve se comportar em determinadas situações, vive em conflito e incerta quanto a sua real competência, tem sempre o sentimento de que nunca faz o bastante, ou nunca faz certo. É muito comum terem dificuldade de socialização, porque entram facilmente em conflito com os amigos, e não sabem como resolvê-los. Porem, mais do que tudo, temem a separação da mãe, porque não sabem o que fazer sem a sua orientação, o que acaba reforçando o vinculo simbiótico com esta.

A ansiedade acontece porque estas crianças permanecem coladas na maternagem e parecem nunca sentir que estão preparadas o bastante para viver, por conta própria, as situações do cotidiano. Não podendo fazer uso de conhecimento adquirido para compreender e agir sobre o meio, tudo sempre parece maior e mais assustador do que o que ela pode enfrentar. Seja uma prova, uma amizade ou uma festa. Estão em constante expectativa e inquietas quanto ao que está por vir. Desse modo, a vida é um constante estado de estresse.

Fonte: Presidente do Departamento Científico de Saúde Mental da SPSP