O papel dos sucos na alimentação complementar

A alimentação complementar é o conjunto de todos os alimentos oferecidos durante o período em que a criança continuará a ser amamentada ao seio, embora sem exclusividade. Conforme o nome sugere, ela tem a função de complementar os nutrientes necessários para o crescimento saudável e pleno desenvolvimento das crianças.

Além de suprir as necessidades nutricionais, a partir dos 6 meses, a alimentação complementar aproxima de maneira progressiva a criança dos hábitos alimentares da família, numa adaptação onde são apresentados novos sabores, cores, aromas e texturas. Ela deve prover quantidades adequadas de água, energia, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais, sendo oferecida inicialmente em forma de papa, com transição para pequenos pedaços dos 9 aos 11 meses para que aos 12 meses possa alcançar as características e consistência da alimentação da família.

Se realizada de maneira incorreta, a alimentação complementar pode expor a criança a risco de contaminação na manipulação e preparo dos alimentos, facilitando a ocorrência de quadros de diarreia, anemia, desnutrição e obesidade. No Brasil, a introdução da alimentação complementar costuma ocorrer precocemente, com ampla oferta de alimentos industrializados incluindo doces, bolachas, sucos artificiais e refrigerantes.

Os primeiros alimentos a serem oferecidos são as frutas, excelentes fontes de vitaminas, minerais, fibras e compostos que contribuem para a prevenção de doenças. Elas devem ser oferecidas in natura, na forma de papas em colher. Sucos de fruta nem sempre proporcionam o mesmo benefício devido às perdas de fibras e alguns nutrientes no processo de preparo, além de conferir menor saciedade.

Atualmente há controvérsias sobre a oferta de sucos de fruta entre os principais protocolos nacionais e internacionais. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), os sucos de fruta devem ser evitados e restritos aos elaborados com a fruta in natura. A oferta deve ser no copo, em pequena dose, como complemento das refeições salgadas e nunca em substituição a elas, com o objetivo de facilitar a absorção de ferro não heme das verduras escuras e dos feijões. A escolha da fruta deve levar em conta a regionalidade, custo, estação do ano e a presença de fibras, sendo que nenhuma fruta é contraindicada. Os sucos naturais devem ser evitados, mas, se forem administrados, que seja no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas, em quantidade máxima de 100 ml/dia.

A Academia Americana de Pediatria (AAP) também recomenda que, a partir dos 6 meses, as frutas devem ser oferecidas in natura, por conterem maior valor nutricional do que os sucos, e contraindica a oferta de suco no primeiro ano de vida, restringindo a oferta a 120 a 180 ml/dia entre 1 e 6 anos.

Sucos de fruta 100% naturais podem fazer parte da dieta, sendo oferecidos em copo e não em outros utensílios como mamadeiras, que facilitem sua oferta ao longo do dia. Sucos artificiais não devem fazer parte da dieta. A água deveria ser promovida como a principal fonte de hidratação do dia, ao invés de bebidas açucaradas.

Em casos de sucos de fruta batidos com água, deve ser utilizada a água fervida ou filtrada, uma vez que sucos não pasteurizados podem estar associados à contaminação (água, utensílios e manipulador). Eles não devem ser adoçados, uma vez que a criança tem preferência inata pelo sabor doce e parece predisposta aos alimentos com alta oferta calórica, devido a palatabilidade, prejudicando o interesse da criança por outros alimentos.

Os padrões de alimentação infantil vêm mudando de maneira rápida no mundo. É crescente a troca de alimentos in natura por alimentos processados, destacando-se os sucos açucarados, com alta densidade energética. Eles são produzidos com extratos de frutas e adicionados de açúcar (sacarose) ou adoçante artificial e diluídos em água, sendo, na maioria das vezes, acrescidos de conservantes, aromatizantes e outros aditivos. Esses sucos vêm sendo erroneamente associado à boa hidratação, saúde e bem estar. São contraindicados aos lactentes, pela associação com aumento de peso não saudável, surgimento precoce de cárie dentária e alergias. Sucos não são indicados no tratamento de diarreia ou desidratação, e seu consumo excessivo pode estar associado à desnutrição, obesidade, cárie dentária, flatulência (gases) e distensão abdominal.

A orientação dietética é fundamental na formação de hábitos saudáveis e prevenção de obesidade e cárie dentária desde a primeira infância. É fundamental priorizar o consumo de alimentos integrais e limitar a ingestão de carboidratos de ação rápida e açúcar simples que conferem baixa saciedade. Sendo assim, a oferta de suco aos lactentes deve ser cuidadosa, uma vez que a oferta de frutas in natura é fundamental para a boa mastigação, funcionamento intestinal adequado, desenvolvimento da saciedade e manutenção da saúde oral.

Fonte: Grupo de Saúde Oral da SPSP