Obesidade e hipertensão arterial na infância

 

A vida moderna, o estresse, a velocidade na qual as coisas acontecem nos últimos anos têm tido reflexos na sociedade e na saúde. Algumas vezes bons, outras vezes não. Esse impacto se mostra cada vez maior na saúde das crianças. Sedentarismo, facilidades de comunicação on line, fast food, entre outros aspectos da sociedade contemporânea, têm acelerado o processo de maturidade das crianças e, com isso, problemas de saúde que antes eram considerados como exclusivos da vida adulta se tornam cada vez mais frequentes na prática pediátrica.

Dentre esses problemas, a hipertensão arterial (a chamada pressão alta) e a obesidade na infância, caracterizada pelo aumento do peso corporal proporcionalmente maior do que o ganho em altura, têm tido destaque tanto nas discussões acadêmicas quanto na mídia.

 

As razões para isso e também para anúncios alarmistas em redes sociais é que essas duas doenças estão intimamente relacionadas entre si e com o desenvolvimento de uma maior taxa de morbidade e mortalidade, tanto no decorrer da vida adulta quanto no aparecimento precoce de condições mórbidas graves ainda na infância, como as doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. Além disso, os números preocupantes de aumento da incidência dessas duas doenças são cada vez maiores, apesar dos esforços das sociedades médicas e grupos de estudos e controles de doença ao redor do globo para combater e controlar seu aparecimento.

Quem acompanha as discussões em redes sociais já se deparou com notícias sobre a influência da propaganda de produtos alimentícios destinados a crianças que contem quantidades exageradas de açúcar e sódio. Algumas destas publicações revelam uma preocupação cada vez mais frequente com o futuro das crianças.

Entendendo a obesidade infantil

A obesidade, definida como um índice de Massa Corporal (IMC) maior que o percentil 95% dos estudos populacionais, é um real problema de saúde pública em todo o mundo. Estudos epidemiológicos atuais revelam que nos Estados Unidos a prevalência da obesidade na infância chega a 18%. Essa alta prevalência também é observada na Europa e tem sido tendência em outros países, de acordo com estudos realizados na Índia, China, África do Sul e também no Brasil, sendo que a prevalência mundial de obesidade aumentou em 2,5 pontos percentuais entre 1990 e 2010, atingindo 6,7% naquele ano e com uma expectativa de ultrapassar 9% em 2020.

A obesidade pode ser entendida como uma condição multifatorial, na qual fatores genéticos, ambientais, sociais, endocrinológicos e comportamentais estão envolvidos. O consumo exagerado de bebidas adoçadas, como sucos e refrigerantes, guloseimas, fast foods, ausência de exercícios físicos adequados para a idade e excesso de tempo gasto em atividades estáticas, como assistir televisão, uso de computador e de jogos eletrônicos estão incluídos nestes fatores. Entender os fatores causais ajuda também a entender as formas de tratamento e prevenção.

Entendendo a hipertensão arterial

A hipertensão arterial, também conhecida como pressão alta, pode ter duas origens: a origem primária, também conhecida como essencial, responde por mais de 90% das hipertensões do adulto e, até pouco tempo, era característica desta faixa etária. A origem secundária, ou seja, na qual existe uma doença sabidamente causadora da hipertensão, é mais comumente encontrada na infância. Porém, o que se tem visto é um aumento significativo da chamada hipertensão primária entre as crianças. Dentre os fatores de risco para esse tipo de hipertensão estão a obesidade, hábitos alimentares, aumento do ácido úrico no sangue, alto consumo de sódio, vida sedentária, baixa qualidade do sono e fumo passivo. Outros fatores envolvidos são genéticos, étnicos, fatores associados às condições do parto e classe social, estes não podendo ser modificados. Existem diferentes teorias envolvendo a gênese e desenvolvimento da hipertensão que incluem alterações hormonais, vasculares, resistência à insulina e ativação do sistema nervoso autônomo.

A incidência da hipertensão arterial pediátrica tem sido em torno de 2,5% a 3% em todo o mundo, dados similares aos encontrados em estudos brasileiros, o que tem se tornado alvo de preocupação frequente entre os pediatras clínicos.

A relação entre obesidade e hipertensão

É sabido que a hipertensão ocorre mais frequentemente entre obesos e a obesidade por si só aumenta os níveis de pressão arterial. Esses dados têm sido confirmados por diversos estudos em diferentes países. Os mecanismos envolvidos nesta relação são a resistência à insulina e hiperinsulinemia (aumento da produção de insulina e do seu nível no sangue). Isso faz com que os vasos que irrigam os rins se contraiam e a irrigação diminua, ocorrendo aumento da produção de um hormônio que leva a uma reação em cadeia de um sistema conhecido como Renina-Angiotensina-Aldosterona, que faz aumentar a quantidade de sódio e dos níveis de pressão arterial. Outro hormônio, chamado leptina, produzido pelas células de gordura do corpo, também faz aumentar os níveis de pressão, sendo outro fator de correlação entre gordura corporal e pressão alta.

A obesidade também favorece uma condição chamada apneia do sono, o que leva a uma condição de baixa oxigenação chamada hipóxia, que ativa o sistema nervoso simpático a produzir hormônios que elevam a pressão.

Além disso, a inflamação crônica gerada pela obesidade, bem como o desgaste energético e metabólico, também estão associados à origem da hipertensão arterial.

Evitando e tratando o problema

Por se tratarem de duas situações extremamente complexas, o tratamento, bem como a prevenção, da obesidade e da hipertensão arterial envolve uma abordagem multifatorial. É vital a compreensão destes distúrbios como graves problemas de saúde, tendo em vista que, seguindo a tendência mundial de aumento de seus índices, em breve teremos uma grande população de crianças obesas, com risco cardiovascular aumentado e adultos com doenças cardiovasculares cada vez mais precoces.

O envolvimento do pediatra e dos pais na prevenção dos agravos é extremamente importante, sobretudo nas fases iniciais da doença ou, preferencialmente, antes que comecem a se instalar, modificando hábitos que desde cedo prejudicam o bem estar e a saúde das crianças, desde o início da vida.

É importante que os pais sejam orientados a conduzir o estilo de vida das crianças, através do desenvolvimento de rotina de alimentação saudável, incluindo alimentos que tenham um valor nutricional alto, excluindo desta rotina doces e guloseimas com alto índice glicêmico, o que promove um pico de insulina elevado, ocasionando alterações metabólicas que levam ao surgimento da obesidade. Por vezes, tais alimentos aparecem maquiados sob formas aparentemente inócuas como sucos de frutas, entre outras apresentações, porém os pais devem ser orientados a procurar nos rótulos dos alimentos informações sobre a quantidade e qualidade de açúcares e sódio, pois a ingesta aumentada de sódio favorece o aparecimento da hipertensão arterial e de doenças cardiovasculares.

Outras orientações recaem sobre o estilo de vida mais ativo, visando manter uma rotina saudável de exercícios físicos adequada para a idade e adaptada à rotina de cada criança.

O pediatra, ao detectar precocemente alterações da composição corporal, do índice de massa corpórea e da massa de gordura, bem como a aferição e detecção de alterações dos níveis de pressão arterial, tem condições de avaliar as possíveis causas destas alterações e promover o tratamento nos diversos níveis de atenção, indicando um acompanhamento especializado quando se fizer necessário.

Lembrando que a criança nunca está sozinha e sim, inserida em uma família. Esta também dever seguir as mesmas mudanças de estilo de vida, pois os hábitos das crianças são constituintes dos de sua família. Portanto, a alimentação saudável e rotina de exercícios devem ser seguidas por todos os familiares, além de outras orientações como o desencorajamento ao tabagismo, uma vez que o tabagismo passivo também é fator importante para o aparecimento destes problemas.

Agindo juntos, pais e filhos, sob a orientação do pediatra, podem reverter esta tendência e aumentar as chances das gerações futuras terem uma vida saudável e livre destas doenças, que figuram entre as principais causas de morte e agravos permanentes em todo o mundo.

Fonte: Departamento Científico de Nefrologia da SPSP