Para crescer cheio de saúde

A busca por um futuro com menos doenças deve começar quando seu filho ainda estiver na barriga e continuar permeando cada hábito que compõe a rotina dele. Saiba como guiá-lo em cada etapa, para que não falte disposição – nem sorrisos

Faça um exercício de memória: identifique as escolhas do passado que mudaram o rumo da sua vida. Provavelmente, a conclusão será de que elas começaram lá na adolescência, com a preparação profissional, e que as atitudes da infância não tiveram grande impacto no curso da sua história. Não é bem assim. O que acontece é que, no começo da vida, alguém – pai, mãe ou cuidador – tomou boa parte das decisões por você. E elas fizeram a diferença para formar a pessoa que é hoje.

Agora, chegou a sua vez de decidir pelo seu filho – e é preciso começar cedo. Dos cuidados durante a gravidez, quando o hábito de caminhar sempre pode até torná-lo mais inteligente, passando pela amamentação, o cardápio do dia a dia, o horário de dormir, as vacinas, as consultas com o pediatra e até as brincadeiras, tudo faz parte da construção de uma infância mais saudável, livre do fantasma da obesidade, e que terá impacto direto no futuro da criança.

Cada escolha certa é uma oportunidade a mais de garantir a qualidade de vida do seu filho lá na frente. Nem sempre é fácil tomar a melhor decisão. A dona de casa Ana Paula Santos, mãe de Guilherme, 10, sabe bem como é difícil reverter o prejuízo – mas não impossível. Quando o filho tinha 3 anos, o marido foi transferido para os Estados Unidos e a família toda se mudou. A nova casa, forrada de carpete, tornou as crises de bronquite do menino cada vez mais frequentes. Na escola, a ansiedade por conta da dificuldade de adaptação, aliada à alimentação calórica dos americanos, fez com que ele comesse mal e em excesso, ficando acima do peso.

Não demorou para que o sono fosse afetado e a autoestima despencasse. “Não sei exatamente quando perdemos as rédeas da situação. O fato é que, quando retornamos ao Brasil, em 2011, Guilherme estava obeso, ansioso, não dormia direito e nem conseguia acompanhar o programa escolar (aos 9 anos, ele não sabia ler nem escrever)”, conta ela.

Aqui, Ana e Guilherme decidiram dar um basta em tudo isso. O primeiro passo foi consultar um neuropsicólogo, que o diagnosticou com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, distúrbio que compromete a concentração, entre outros problemas. Um tratamento conjunto com neuropsicólogo e psiquiatra melhorou a capacidade de aprendizado e ele foi alfabetizado. Já o otorrino atribuiu as noites mal dormidas à apneia do sono, que provoca interrupções na respiração, afetando a qualidade do descanso. Uma cirurgia para retirar amídalas e adenoides devolveu a ele o repouso noturno. As aulas de natação, quatro vezes por semana, acabaram com as crises de bronquite. E, agora, a expectativa da mãe é que o novo cardápio balanceado, elaborado por um nutricionista, ajude a eliminar os quilos extras. “Com muito esforço e dedicação, tudo está começando a entrar nos eixos”, comemora.

O ideal, mesmo, é tentar evitar que a situação chegue a esse ponto. Mas não se culpe, achando que perdeu a hora. A infância representa uma chance valiosa para moldar um adulto sem doenças, como as do coração e o diabetes, e livre de ansiedade, depressão e outros males do gênero. Basta que, a exemplo de Ana Paula e Guilherme, filhos e pais reúnam esforços, parem de adiar e sigam, desde já, o caminho para uma vida saudável.

Nove meses de bom exemplo

A partir do momento em que a vida começa no útero, cada atitude da mãe vai influenciar o desenvolvimento do filho, a ponto de definir características que persistirão até a fase adulta. E não estamos nos referindo somente aos exames e consultas do pré-natal que, obviamente, são fundamentais para a prevenção de doenças e malformações no bebê. O impacto dos hábitos da gestante na criança vai além, e vem sendo foco de muita investigação científica.

Pesquisadores do Dana-Farber Children’s Cancer Center (EUA) analisaram o histórico de mais de 8 mil crianças e constataram uma menor incidência de alergias naquelas em que as mães comeram amendoim com frequência durante a gravidez. “Tudo o que a gestante consome passa para o bebê pela placenta. E expor o feto a itens potencialmente alergênicos, como amendoim e peixes, ajuda a adaptar o sistema imunológico dele a esses alimentos, diminuindo o risco de alergias”, concorda o pediatra Marcelo Reibscheid, do Hospital e Maternidade São Luiz (SP).

Diversificar, sim, mas com critério do que se coloca no prato. Essa é a mensagem de um estudo conduzido pela Universidade de Yale (EUA). Partindo de uma revisão de testes com humanos e de um experimento com cobaias, os cientistas constataram que mulheres que ingerem muita gordura na gravidez aumentam os riscos de a criança ser obesa quando crescer. “A dieta gordurosa desequilibra os mecanismos relacionados à saciedade, como a ação do hormônio insulina. Isso quer dizer que o cérebro do bebê é programado, desde o útero, para ganhar peso durante a vida”, explica Tamas Horvath, autor do trabalho.

É evidente que romper com o sedentarismo também favorece o bebê, segundo um experimento recente da Universidade de Montreal, no Canadá, que avaliou a atividade cerebral de 18 recém-nascidos. Mulheres que praticaram exercícios físicos moderados, três vezes por semana, em sessões de 20 minutos, tiveram filhos com uma resposta cognitiva mais madura.

“A atividade física melhora o fluxo sanguíneo na placenta e, consequentemente, aumenta a oxigenação fetal. É possível que os neurônios e as conexões entre eles sejam beneficiados por esse processo”, esclarece a médica do esporte Ana Lucia Pinto, da USP. Vale, portanto, conversar com o seu obstetra e considerar uma natação, uma caminhada ou uma aula de ioga.

 

Aos cuidados do pediatra

Do nascimento à adolescência, é o pediatra quem vai oferecer, digamos, todo o apoio técnico para o seu filho crescer saudável e em segurança. Isso requer uma parceria de confiança, em que ele participa com a experiência e você, com a prática. Por isso, a palavra de ordem, na hora de elegê-lo, é critério. Converse com amigos e familiares, busque referências e procure saber, principalmente, se ele é didático, paciente e acessível. Você vai precisar recorrer inúmeras vezes a esse especialista nos primeiros anos de vida do seu filho e deve se sentir seguro e amparado quando isso acontecer.

Tê-lo por perto é fundamental não só nas emergências. Os dois primeiros anos de vida da criança são determinantes para a formação da estrutura neurológica, que define o potencial de desenvolvimento dela, segundo o pediatra Donizetti Giamberardino, diretor técnico do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR). Essa é a razão pela qual o médico deve acompanhar a aquisição da fala, as características motoras e o comportamento, incluindo padrão de sono, choro e reações a estímulos.

Após essa fase, o acompanhamento passa a ser anual, mas tenha em mente que recorrer ao pediatra do seu filho é sempre mais seguro e adequado do que apelar para o pronto-socorro. É ele quem conhece o histórico da criança e é capaz de prescrever tratamentos ou solicitar exames sob medida.

Picada que protege

Todo mundo sabe que está longe de ser uma situação agradável: você, sem poder fazer nada, vendo seu filho chorar por causa da agulha e tentando convencê-lo de que é pelo bem dele. E pior, sabendo que ali estão sendo inoculados micróbios causadores de doenças. Só com muito autocontrole. A vacina é a melhor aliada do seu filho, pois promove uma espécie de treino para uma eventual guerra, só que com “inimigos” atenuados ou mortos, incapazes de causar estrago. Quando injetados no organismo, são detectados pelas células de defesa do corpo que aprendem a combatê-los e guardam uma “memória imunológica”. Daí para frente, se um “agressor” de verdade tentar infectar a criança, sua guarda estará preparada para expulsá-lo.

O calendário de vacinação brasileiro é bastante completo e deve ser seguido à risca. Ele tem 14 vacinas gratuitas, muitas delas aplicadas em três doses, sendo que algumas devem ser administradas no recém-nascido, como a de hepatite B. Se, por qualquer razão, seu filho perdeu uma, regularize a situação. É melhor prevenir do que remediar.

 

Sono revigorante

 

Dormir para crescer. Essa máxima é velha conhecida dos pais, já que o hormônio do crescimento é secretado durante o descanso noturno. O que nem todo mundo sabe é que essa mesma substância tem a função preciosa de renovar os tecidos de todos os órgãos, assegurando que eles trabalhem harmonicamente.

“Também há evidências de que o sono atue como fator protetor contra infecções e processos inflamatórios, inclusive os que estão por trás do surgimento de tumores”, ressalta a neurologista Marcia Pradella-Hallinan, do Instituto do Sono da Unifesp. As benesses de uma noite tranquila não param por aí.

Segundo uma pesquisa da Universidade de Chicago (EUA), a falta de sono desregula o metabolismo de açúcar e gordura. Depois de monitorar o padrão de sono de 300 crianças, com idade entre 4 e 10 anos, e analisar parâmetros como Índice de Massa Corporal e do hormônio insulina, os cientistas verificaram um risco quatro vezes menor de desenvolver disfunções como obesidade e diabetes no grupo que dormia pelo menos nove horas por dia, em comparação com os que tinham sono irregular ou insuficiente.

Entretanto, para desfrutar desses efeitos positivos, não basta garantir que seu filho permaneça na cama pelo tempo recomendado para a faixa etária dele. É preciso ter certeza de que a qualidade do repouso está de acordo com o desejável. “Ronco, movimentos e despertares frequentes durante a noite, hiperatividade e mudanças de humor ao longo do dia podem indicar um sono insuficiente e merecem avaliação médica”, avisa Marcia.

Em casa, faça a sua parte e determine uma rotina, como um banho morno antes de colocar o pijama. Assim, será mais fácil garantir noites tranquilas e revigorantes para toda a família.

A importância da atividade física

"120 MINUTOS POR DIA. ESSE É O TEMPO QUE O SEU FILHO PRECISA MOVIMENTAR O CORPO, SE ELE TEM ENTRE 2 E 5 ANOS."
 

A partir dessa idade, a necessidade cai para uma hora diária, segundo a OMS. Parece muito? Não é, se você considerar que ele pode gastar essa cota brincando, pulando, correndo ou jogando bola. A recompensa vale a pena.

“A atividade física fortalece a musculatura torácica, melhorando a capacidade respiratória; atua na formação óssea, prevenindo osteoporose no futuro; protege os vasos sanguíneos, impedindo o acúmulo de gordura e a elevação da pressão arterial que, um dia, poderiam culminar em doenças cardiovasculares; reforça o sistema imunológico; e afasta a ameaça da obesidade”, garante a pediatra e médica do esporte Ana Lúcia Pinto, da USP.

Mas não adianta exigir que seu filho se movimente se você passa o fim de semana em frente à televisão. As crianças têm os pais como referência e tendem a reproduzir o comportamento deles. Hora de rever seus próprios hábitos.

Presente dos músculos
Quando nos exercitamos, o tecido muscular fabrica uma substância chamada miocina. Por sua vez, ela estimula a liberação de células anti-inflamatórias, explica a pediatra Ana Lucia Pinto. O resultado é uma imunidade mais eficiente e uma redução na ocorrência de doenças típicas da infância, como amidalite, sinusite, bronquite e asma.

 

Um molde no paladar

 

Se a alimentação é nosso combustível para viver, a saúde depende dela, em boa parte. Por isso é tão importante ter consciência do que (e quanto) ingerimos. Cabe aos pais ensinar aos filhos como comer bem desde cedo – a começar pela primeira papinha, aos 6 meses de vida. “A criança precisa de comida e não de sopa. É necessário mastigar, usar a gengiva e os dentes”, defende o pediatra e nutrólogo Ary Lopes Cardoso, do Instituto da Criança (SP).

Ele reforça que a refeição deve ser gostosa, para despertar o prazer em se alimentar. E não é preciso preparar um prato exclusivo – a criança deve se adaptar à família, desde que tenha hábitos saudáveis. Você pode amassar arroz, caldo de feijão e pedaços de carne com um garfo, e servir com legumes e verduras picados. Ou tentar uma massa – como o nhoque –, com molho de tomate. Purês de legumes, como batata e cenoura, também costumam fazer sucesso.

O segredo é garantir, na composição do prato, hortaliças, cereais, leguminosas, frutas e carnes. Os temperos não são proibidos, mas é preciso maneirar no sal. Açúcar, gordura e produtos embutidos devem, de preferência, ficar fora da mesa. Nem é preciso dizer que o bom exemplo dos adultos faz toda a diferença para que a criança aprenda a incorporar o que faz bem à dieta.

Tão importante quanto cuidar do cardápio é adequar o comportamento alimentar da criança, fazendo-a comer de forma saudável, nas horas certas. Varie diariamente os ingredientes para ampliar seu repertório de sabores. O melhor é fornecer cada alimento separadamente, para que ela saiba distingui-lo e estabeleça suas preferências – e deixar que ela os manipule. E se você tem horror à bagunça, é bom rever seus conceitos. Uma pesquisa da Universidade de Swansea, no Reino Unido, com 298 bebês de 18 a 24 meses, sugere que as crianças comam sozinhas desde os 6 meses, e com as mãos.

“Elas são capazes de pegar massas e purês e, enquanto isso, treinam o próprio apetite, aprendendo a interpretar quando estão satisfeitas, o que previne um padrão de exageros alimentares no futuro”, garante a pesquisadora Amy Brown, que conduziu o estudo.

Desjejum, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Essa é a distribuição de refeições ideal para o seu filho se acostumar a uma rotina regrada desde pequeno. E atenção! Nada de deixá-lo comer em frente à TV nem barganhar para que coma mais quando já estiver satisfeito.

Equívocos que engordam

Abrir a guarda para o famigerado fast-food é uma armadilha que deve ser evitada. “A garotada não sabe que ele é palatável até experimentá-lo. É importante os pais deixarem claro que esse tipo de produto não faz bem”, aconselha a nutricionista Andrea Galdino Figueiredo, do Hospital Beneficência Portuguesa (SP). Do contrário, o indesejado sobrepeso poderá se instalar desde cedo, o que prejudica tanto a saúde física como a emocional, ao comprometer as relações interpessoais.

Foi o que aconteceu com Ana Júlia, filha da veterinária Fabiana Martinez Souza, de 40 anos. A menina tem tendência a engordar por conta da genética da família paterna, mas seu peso era normal até os 4 anos, quando passou a frequentar a escola em período integral. Lá, Ana Júlia fazia refeições pesadas, ricas em gorduras e açúcares. “O cardápio era todo errado. Eles serviam embutidos, tortas e doces. Então, ela começou a ganhar peso rapidamente e, aos 7 anos, chegou a pesar 44 quilos”, lembra Fabiana.

Ana Júlia sofria com o bullying dos colegas. Depois de muita reivindicação das mães, a empresa responsável pela alimentação escolar foi finalmente substituída. Ao mesmo tempo, a menina começou a fazer exercícios físicos regularmente – balé, natação e ginástica olímpica –, o que a ajudou a emagrecer. Em casa, a mãe optou por uma mudança radical: na despensa, não entrariam mais produtos calóricos.

“No começo, foi difícil. Ela queria comer bolacha, doce, e ficava irritada. Eu dizia: ‘Tem fruta’. Aos poucos, ela foi se acostumando”, conta Fabiana. Com as trocas certas e muita firmeza, a rotina de exercícios combinada com a reeducação alimentar de Ana Júlia surtiu resultado. Hoje, aos 10 anos, ela pesa 34 quilos e não sofre mais com os apelidos pejorativos na escola. Sem contar que, certamente, ela se tornará um adulto mais consciente do que é fazer escolhas para uma vida mais saudável e feliz.

A verdade sobre as papinhas
Papinha industrializada não é a mesma coisa daquela feita em casa, claro, mas faz parte do mundo moderno. Elas não são contraindicadas pelos médicos, mas devem ser consumidas com moderação e bom senso – dê preferência às orgânicas, já disponíveis no mercado. Alimentar a criança só com elas, nem pensar.

Fonte: Revista Crescer