Autismo e alergia alimentar

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) caracteriza-se por uma coleção de condições do neuro desenvolvimento, levando a deficiências na comunicação e interação social, comportamentos repetitivos e padrão de interesse restrito.

A criança com TEA costuma selecionar os alimentos durante a refeição, recusando o que não conhece ou que apresente textura e sabor diferentes. Daí, então, a importância de se oferecer alimentação adequada desde os primeiros meses de vida, tais como aleitamento materno e alimentos naturais. Por muito tempo, esse padrão alimentar justificou a elevada frequência de distúrbios gastrointestinais, como diarreia e constipação (intestino preso), observados nos primeiros três anos de vida das crianças com TEA. Entretanto, no início da vida, além do desenvolvimento do padrão alimentar e da colonização microbiana no trato digestório da criança, há o desenvolvimento dos sistemas nervoso e imunológico no intestino. A falha de qualquer um desses componentes pode causar alteração intestinal importante.

O sistema imunológico do indivíduo com predisposição genética para o autismo, ao ser estimulado por um agente infeccioso – principalmente viral, ou outro (tóxico, estresse etc) – é capaz de ativar determinadas células e liberar substâncias inflamatórias e tóxicas ao sistema nervoso central (SNC), conhecidas como neurotoxinas. Consequentemente, há um aumento na permeabilidade da estrutura que protege o SNC, chamada barreira hematoencefálica (barreira sangue/cérebro), facilitando a entrada de outras células e substâncias pró-inflamatórias que ativam as terminações nervosas localizadas especialmente nas áreas do cérebro denominadas hipotálamo e diencéfalo, que são responsáveis pela regulação das emoções. Esse evento é também chamado encefalite focal. Recentemente, foi sugerido que a alergia, principalmente alimentar, poderia levar a essa encefalite focal, aumentando o risco de TEA.

Com o objetivo de melhorar aspectos comportamentais e de aprendizagem em crianças autistas, foram criados inúmeros tratamentos dietéticos, como a dieta livre de caseína e de glúten. Alguns estudos, embora pequenos, por curto período de tempo e sem metodologia científica adequada, em que eliminaram o glúten e a caseína da dieta dos pacientes autistas, mostraram melhora da linguagem e outros aspectos. Entretanto, outros estudos mais duradouros e com maior valor científico não confirmaram esses resultados ou foram inconclusivos. Diante de tais evidências, o valor terapêutico das dietas isentas de glúten e/ou caseína ainda é limitado e indefinido.

Outra consideração importante é que o número de casos de pessoas com doença celíaca (intolerância ao glúten) entre os autistas não é superior ao encontrado na população normal. Além disso, embora a sensibilidade ao glúten nāo-celíaca possa se apresentar com aspectos clínicos diversos, incluindo sintomas neurológicos, as evidências atuais não são suficientes para indicar uma dieta sem glúten nestes pacientes.

Os riscos dessas restrições alimentares é que podem se associar a rejeição social, estigmatização, dificuldades de socialização e integração, com potenciais efeitos adversos no próprio TEA. As dietas de exclusão de glúten e/ou caseína, ou mesmo outro alimento, não devem, portanto, ser indicadas a pacientes com TEA, exceto se apresentarem diagnóstico bem definido de intolerância ou hipersensibilidade alimentar.

Fonte: Departamento Científico de Alergia da SPSP.

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